16 novembro, 2025

Minha psicóloga me recomendou voltar a ter um diário

Que loucura pensar o quanto a vida pode mudar em poucos meses né. 


No dia 10 de agosto de 2025 eu peguei um voo só de ida para o Rio Grande do Sul. Coloquei minha vida em 2 malas e embarquei no meu futuro. Mas obviamente não é muita coisa que cabe em 2 malas. Isso que foi o pior. Deixar as coisas que eu mais amo pra trás. No caso a minha família e as pessoas queridas.

O motivo de tudo isso é que eu amo trabalhar com design de calçados. Eu sou uma mineira que nunca se importou muito com o próprio estado, mas depois que comecei a trabalhar, percebi que fazer viagens pelo meu estado era algo que eu podia bancar sozinha e que me fazia muito feliz. Esse ano mesmo comecei a conhecer algumas cidades que eu nunca havia ido. Eu e meu companheiro temos uma lista de lugares para ir. Porém, infelizmente, meu primeiro e anterior trabalho era um ambiente que estava me dando crises agressivas de ansiedade. Como pode um lugar com pessoas tão incríveis te fazer sentir tanta dor?

Eu não queria deixar de trabalhar com o que amo. Me propus a terminar a faculdade e buscar outra oportunidade em uma empresa menor. Entreguei meu TCC em fevereiro/2025, e colei grau em Design de Produto em maio! Tudo estava indo conforme o plano, exceto que eu não conseguia achar outro emprego, mal mal fazia entrevistas. Trabalhei duro no meu portfólio e currículo, mas ainda assim, nada. Eu estava desesperada. Não aguentava mais o sofrimento e os abusos. Me vendo sofrer tanto, meu parceiro sugeriu: ''Por que você não procura em outros estados?''

Sinceramente... a primeira coisa que pensei foi que isso era absurdo. Será que ele não me ama e quer me mandar pra longe? Mas não. É louco pensar que alguém que te ama só quer te ver bem, né? E eu tenho muita sorte de ser tão amada. Conversamos e cheguei à conclusão que não perderia nada por tentar. O mercado da moda tem estado meio instável. Muitas pessoas estão saindo das marcas. Existe um índice de troca de profissionais muito grande. Então também existem algumas oportunidades. Porém, infelizmente, se você não tem contatos, você não tem nada. Raramente as vagas no setor de design de moda são divulgadas, então todas que eu via, eu me inscrevia. Não importava onde. Só queria sair da minha antiga empresa. 

Após algumas entrevistas e testes mal sucedidos, apareceu minha primeira oportunidade! YAY! No Rio Grande do Sul! yay! Longe de tudo e todos que conheço! yay...

Quando recebi a notícia, eu estava nas férias que lutei tanto para conseguir (queriam me boicotar me fazendo crer que eu não tinha direito a mais férias após quase 2 anos de empresa e 2 férias coletivas tiradas). A ideia era passar minhas 2 semanas viajando com minha família, uma viagem que fazíamos anualmente e eu não participava há 3 anos porque sempre a faculdade ou o trabalho me atrapalhavam a ir. Meu plano era ir para as duas cidades no norte de Minas onde minha família mora, aproveitar muito, descansar bastante e quando voltasse eu queria focar na minha saúde mental. Nada de me desgastar mais por trabalho. Tinha acabado de iniciar minha pós graduação em moda e agora tinha planos de juntar dinheiro e estudar até achar outra oportunidade. Estava no carro com minha família, indo para a segunda cidade, quando o RH da empresa me mandou um PDF informando que queriam me contratar.  

Minha família já sabia que eu estava infeliz e estava buscando outra oportunidade. Sabiam que eu tinha feito teste para empresas fora de Minas Gerais. Acho que na hora que recebi a mensagem, ninguém acreditou. Minha irmã ficou dizendo ''tchaaau'' (é o jeito grosseirinho dela de mostrar que apoia minha ida). Meu pai ignorou um pouco. Minha mãe ficou falando ''Cê num vai né?''. Eu nem pensei e já respondi no automático: ''Eu vou.''

Foi uma decisão muito fácil. Parte pelo desespero, afinal, estava muito difícil encontrar oportunidades. Outra parte de mim iria se arrepender amargamente se eu não fosse. O tempo inteiro meu posicionamento se baseava em ''Se eu for e não gostar, pelo menos eu fui. Pelo menos eu vivi. Se eu não for, vou me arrepender. Não quero ficar triste daqui poucos anos pensando em como teria sido.''

Contei para poucos familiares. Tenho uma família muito grande, então a grande maioria descobriu da minha mudança quando eu já estava aqui. 

O dia da mudança foi bem difícil. Acordei às 4h da manhã. O voo era às 7h. Minha madrinha dormiu lá em casa para se despedir de mim. Meu parceiro, meus pais e minha irmã me levaram ao aeroporto. Era domingo de dia dos pais. E meu mêsversário de namoro. Tudo em um, para deixar tudo ainda mais emotivo. Estou quase chorando escrevendo isso agora. Foi muito doloroso me despedir. Estava com medo, mas com bastante esperança. Acho que o medo me anestesiou um pouco. Tive que correr muito e quase perdi o voo. No fim deu tudo certo. Estava com muito medo na conexão, em São Paulo, mas logo cheguei à Porto Alegre. Fui recepcionada por minha amiga Marines, que trabalhou comigo e se mudou à trabalho 2 meses antes. Sobre isso, é importante mencionar que quando ela falou sobre se mudar, eu senti uma espécie de inveja. Não negativa, do tipo ''eu quero tomar isso de você.'' Foi mais o caso de ''eu quero isso também'' Quando a gente joga pro Universo as coisas realmente vêm, né?!

Ela e o namorado me fizeram companhia por uns minutinhos, até o motorista chegar e me levar para a serra gaúcha, onde eu ficaria hospedada em um hotel por 1 mês até achar algum lugar para ficar. Eu tinha olhado algumas possibilidades quando estava em Belo Horizonte, mas nada era muito concreto. Me dei a chance de conhecer o emprego e a cidade antes. 

Na tarde em que cheguei, estavam fazendo 5 graus! Preciso reiterar aqui que eu detesto frio. Venho de uma cidade seca, o mínimo que já tinha enfrentado eram 9 graus. Quando fazem 23 graus eu já acho apropriado colocar uma cobertinha. Foi chocante para mim que após tomar o delicioso café da manhã no hotel, eu teria que ir para a empresa experenciando a maravilhosa temperatura de DOIS GRAUS. Obviamente eu não tinha roupa suficiente para isso. Não tinha muito espaço também, meu plano era comprar quando chegasse. Sobre a empresa, eu não esperava, mas o pessoal da equipe me recebeu muito bem! Senti bastante carinho do pessoal. Chegar no hotel de tarde me deu o alívio de que talvez eu fosse gostar daqui.

Quando eu vim, eu ainda não tinha um computador. Comprei esse, por onde lhes escrevo, 2 semanas após chegar na cidade e pedi para entregarem no hotel. Ele me ajudou muito, principalmente na hora de procurar lugares para morar. A minha ideia era, desde o início, dividir casa com alguém. Pesquisei bastante e vi que o custo de vida seria bem caro e não queria depender dos meus pais. Além disso, sou uma pessoa extremamente extrovertida. Se além do frio, eu sentisse solidão, eu não iria suportar. Preciso de pessoas para me renovar. Olhei poucos lugares, mas o lugar onde estou hoje é um apartamento que meu companheiro encontrou, onde moro com mais meninas. Descobri ele faltando uma semana para sair do hotel, então tive esse tempo para organizar minhas coisas. Mas obviamente eu deixei para fazer isso na manhã em que iria embora, porque sou muito enrolada.

Agora estou aqui. Há 2 meses tenho buscado me organizar financeiramente, entender meus gastos e minhas necessidades, tudo isso enquanto eu trabalho de segunda à sexta e ainda tento viver enquanto concilio minha pós graduação. Minha rotina tem sido basicamente:

HorárioSegundaTerçaQuarta (terapia)QuintaSextaSábadoDomingo
05h00–05h40Acordar, higiene, café da manhãAcordar, higiene, café da manhãAcordar, higiene, café da manhãAcordar, higiene, café da manhãAcordar, higiene, café da manhãExercício leve + caféCaminhada/atividade leve
05h40–06h20Exercício ou leituraExercício ou leituraExercício ou leituraExercício ou leituraExercício ou leituraOrganização rápida da casaCafé tranquilo
06h30–07h30Deslocamento p/ trabalhoDeslocamentoDeslocamentoDeslocamentoDeslocamentoCompras da semana (mercado/feira)Organização da semana
07h30–17h30TrabalhoTrabalhoTrabalhoTrabalhoTrabalhoLazer / compromissosLazer / descanso
18h30–19h00Chegada em casa + banhoChegada em casa + banhoChegada em casa + banhoChegada em casa + banhoChegada em casa + banhoLazer ou descansoEstudo / leitura
19h00–19h40JantarJantar-JantarJantarLazer ou jantar foraJantar
19h40–20h30Pós-graduaçãoPós-graduaçãoPós-graduaçãoPós-graduaçãoPós-graduaçãoLazer / amigosEstudo ou lazer
20h30–21h30Lazer (série, música, desenho)LazerYoga (18h30-20h)
Terapia (20h–21h)
LazerSaída, lazer ou descansoLazer leve (filme, música)
21h30–22h00Organização do dia seguinte, relaxarOrganizaçãoOrganização pós-terapiaOrganizaçãoOrganizaçãoPreparar semanaPreparar semana
22h00–05h00SonoSonoSonoSonoSonoSonoSono

Isso no mundo ideal né. Na realidade não é sempre assim. Algumas coisas legais que eu tenho feito são: 
  • Passear aos sábados de manhã;
  • Comprar em feiras de orgânicos;
  • Yoga semanalmente;
  • Comprei um kit de cristais;
  • Tenho tentado aprender sobre tarot;
  • Estudar para a pós-graduação e estudar modelagem 3D no blender;
  • Pintei as mechas do meu cabelo de laranja neon;
  • Ir em feiras de artesanato e outros eventos artísticos da cidade;
  • Comprei uma cumbuca rosa e como todas as refeições nela.
  • Fui na minha primeira parada LGBTQIAPN+;
  • Tenho tentado voltar a desenhar;
  • Decorei meu quarto como eu sempre quis!
Infelizmente, nem tudo são flores. O trabalho é legal, mas é um trabalho, então tem seus defeitos. Assim como as pessoas. No atual momento, meus maiores conflitos se dão no apartamento, com uma das colegas com quem divido. Ela é 11 anos mais velha que eu, trabalhamos na mesma empresa, mas vejo que ela tem prioridades que ultrapassam um pouco os limites. Ela costuma ter atitudes bem rudes quando se trata de benefícios próprios. Ela estava hospedada no hotel comigo, eu trouxe ela para ver o apartamento comigo, então ela resolveu ficar também. No início eu gostei, afinal, não estaria sozinha. Ela é uma pessoa legal, mas não para morar junto. Ela obviamente gostaria de estar em outro momento da vida, então é natural que não se sinta confortável morando com mais pessoas. Porém parece que ela faz muita questão de mostrar esse desconforto para todos, o que acaba a tornando uma chata. Todos os fins de semana temos algum conflito estúpido por falta de comunicação. Quando finalmente, após tantos traumas por essa questão, eu pensei que as coisas estivessem melhores, ela me vem definindo coisas na cabeça dela e se frustrando quando eu não as faço como ela esperava sendo que eu nem sabia. Semana passada nós conversamos mas ainda não estamos bem. É como dizem, morar junto com outra pessoa é, de certa forma, um casamento. E nesse caso, um casamento com alguém que conheço quase nada.

Isso tudo me faz refletir sobre as pessoas que tenho ao meu redor. Tenho pessoas incríveis que me apoiam, mas acho que nenhuma delas posso chamar de amiga. No fim, após 3 meses é triste notar que ainda me sinto sozinha, que era o meu maior medo. Costumo tentar ser otimista, então isso é algo no que preciso trabalhar. O que está ao meu alcance eu preciso cuidar. E eu vou. Quero me sentir confortável morando nessa cidade. Quero me sentir bem morando nesse apartamento. Quero me sentir tranquila no trabalho. Tenho vivido pensando no dia 20 de dezembro, quando voltarei para minha casa e para tudo que conheço e amo. Ainda não consigo ver esse lugar como minha casa. Gosto daqui, mas tenho preenchido o vazio com coisas materiais, e sei bem que isso não me ajuda em nada. 

Por conta de tudo isso, voltamos ao título do post. Tenho tanta sorte em ter essa vida. Essa oportunidade é maravilhosa para mim, e modéstia à parte, tenho me saído muito bem tentando ser adulta. Vou melhorar ainda mais, tenho certeza disso. Sou uma pessoa comunicativa, confiante, curiosa sobre o mundo, inquieta, inspiradora. Isso é só um fragmento do começo da vida incrível que tenho construído. Meu cuidado deve ser não levar para mim as críticas e comentários de terceiros. Cada um tem a sua percepção individual das coisas, e a minha nem sempre tem a ver com a dos outros. Mas é tão fácil se deixar levar pela percepção alheia...

Fico feliz de estar de volta! Nos revemos logo menos.

Obrigada por estar aqui! 

3 comentários:

  1. Queria dizer que dei varias risadinhas de satisfação em ver você conquistando suas coisinhas, dentre elas: a sua cumbuca rosa onde você come tudo, consigo até imagina. Adoraria ver seu cabelo novo tbm, se possível. Amo laranja e to pensando em pintar algumas mechas tbm. Que bom que vc conseguiu uma saída e esta com novas perspectivas no novo trabalho, apesar dos problemas, foi tudo muito recente e e rápido, então ainda tem uma longa jornada de adaptação. Tudo de bom, pra você! A terapia vai ser muito necessária mesmo, mantenha seu diário! Vou estar acompanhando por aqui com empolgação.

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  2. aaa adorei acompanhar tua mudança aos poucos e agora tantos detalhes!! uma super boas-vindas ao rio grande do sul!! fiquei emocionada com várias partes dessa aventura, e espero que aos poucos as coisas vão melhorando e tu se sinta mais em casa. eu também tenho muitos conflitos com minha colega de quarto (que é minha prima!, então imagino que seja bem mais tenso com um completo desconhecido.... mas forças!!). eu também demorei para me sentir em casa quando me mudei por conta da faculdade, mas agora vejo que estou no lugar (que por enquanto é o melhor). é muito gratificante termos nossa própria liberdade e rotinas e vivermos do nosso jeito, fico feliz em ver que esta aproveitando o melhor disso tudo :)
    espero te acompanhar mais em breve, cilis <3
    ps: algumas dicas de coisas para aproveitar o sul:
    - no inverno:
    quentão e quentão com gemada (quando puder, experimente!)
    lareira (uma das maravilhas do inverno!! não sei se ai tem, mas aqui em porto alegre muitos cafés tem e é ótimooo)
    -comidas:
    pinhão, cuca (com certeza deve ter ótimas mais pra serra!), xis!!
    -quando vier a poa visite:
    casa de cultura mario quintana (onde eu estagio!)
    museu de arte do rio grande do sul
    museu de arte contemporanea do rio grande do sul
    cinemateca capitólio
    atelie v744
    lancheria vegana mms
    observatório da UFRGS
    biblioteca pública

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  3. quando eu dividia apartamento me sentia muito aquela figurinha ~eu era um ser de luz mas ai aconteceram coisas 🥲 se pensar bem, lidar com pessoas no geral é complicado, só que onde moramos tem o conflito de ser justo no canto que deveria ser calmaria e conforto né? enfim, espero que a desquerida realinhe logo os próprios chakras e azedumes e pare de aporrinhar vocês porque NINGUÉM merece 😝 e boa sorte nessa nova etapa. já é uma grandíssima vitória só por tentar, o que vier disso é lucros atrás de lucro (e espero que não só metaforicamente falando) 😉

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